Capítulo 1: A Pergunta que os Manuais Nunca Responderam
A Sociologia Clássica e a Metade da Realidade que Decidiu Ignorar
1.1. Duas Realidades, Um Único Sistema: A Sociologia da Omissão
Como é possível que os países que mais falam em democracia, direitos
humanos e desenvolvimento sejam, na sua maioria, os mesmos que construíram o
sistema que nega esses direitos a metade do mundo? A resposta, descobri, não
está escondida; está apenas deliberadamente mal enquadrada por uma ciência que
nasceu para explicar o centro, ignorando que o centro só se sustenta pela
exaustão da periferia.
A sociologia que nos ensinaram — e que eu próprio ensinei durante anos
sem questionar suficientemente — nasceu na Europa do século XIX como uma
ciência das cidades industriais. Os seus fundadores, como Marx, Durkheim e
Weber, debruçaram-se sobre problemas reais e urgentes: o operário explorado nas
fábricas de Manchester, a desordem social das grandes metrópoles e a burocracia
prussiana. Eram questões legítimas. O problema não estava no que eles viram,
mas no que decidiram não ver.
Porque enquanto esses pensadores teorizavam sobre a coesão social e o
contrato moderno, os governos desses mesmos países reuniam-se em Berlim, entre
1884 e 1885, para dividir entre si um continente inteiro. Com régua e compasso.
Sem convidar um único africano à mesa. Esta simultaneidade não é uma
coincidência incómoda; é a chave de leitura de tudo o que se segue nesta obra.
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